Postura crítica ou exposição representativa?

Ilustração: trabalhador em bancada com o ângulo de flexão do tronco cotado

Nas perícias de ergonomia, a pergunta técnica que mais decide o resultado raramente está no método escolhido. Está em qual momento do trabalho o método foi aplicado — e se esse momento representa a exposição real do trabalhador.

O problema do pior instante

Ferramentas como RULA e REBA pontuam uma postura. Se o avaliador fotografa o instante mais extremo de um ciclo — o braço acima do ombro ao alcançar a última peça, o tronco flexionado ao pegar o componente no fundo da caixa — e aplica o método apenas a ele, o escore sai alto. Então o laudo conclui por risco elevado, mas essa conclusão descreve alguns segundos, não a jornada.

A NR-17 exige que a avaliação considere a organização do trabalho: ritmo, pausas, duração e alternância de tarefas. Um escore postural isolado não responde a nada disso.

O que torna a avaliação representativa

VariávelPergunta técnica
FrequênciaQuantas vezes por ciclo e por hora a postura crítica ocorre?
DuraçãoQuanto tempo ela dura em relação ao ciclo total?
IntensidadeQual força ou torque está envolvido — medido, não estimado?
RecuperaçãoHá pausas, micropausas ou alternância de grupos musculares?
RodízioO trabalhador alterna postos ou tarefas ao longo da jornada?

Tabela 1 — Variáveis que definem a exposição biomecânica representativa.

Métodos como OCRA e Strain Index incorporam explicitamente frequência, duração e recuperação. A equação do NIOSH considera frequência e duração do levantamento. Quando o laudo usa um método postural, essas variáveis precisam ser tratadas à parte — com cronoanálise.

Caso típico: em uma perícia no setor aeronáutico, a montagem de componentes com ferramentas pneumáticas e cravamento de rebites foi avaliada apenas pela postura mais gravosa, sem cronoanálise e sem quantificação de força ou torque. O parecer técnico demonstrou que a conclusão não decorria de dados representativos do ciclo real.

O que isso significa para a defesa

Não se trata de negar que uma postura crítica existe. Trata-se de exigir que o laudo demonstre quanto dessa postura compõe a exposição diária — porque é a exposição, e não o instante, que se relaciona com o adoecimento. Por isso formulo quesitos que pedem ao Perito a cronoanálise, a frequência da postura avaliada e a medição da força empregada.

Em resumo

  • Escore alto em uma postura isolada não caracteriza, sozinho, exposição de risco.
  • Frequência, duração, intensidade e recuperação precisam ser medidas.
  • Quesitos bem formulados obrigam o laudo a tratar essas variáveis.

Eng. Ednilson Bassani — engenheiro mecânico e de segurança do trabalho, mestre em Engenharia de Produção, CREA/SP 682164426. Cinco anos como Perito Judicial; hoje Assistente Técnico de empresas e escritórios de advocacia.